Há autores que definem a era moderna como a Idade
da Ansiedade, associando a este acontecimento psíquico a agitada dinâmica
existencial da modernidade; sociedade industrial, competitividade, consumismo
desenfreado e assim por diante.
Diz-se que a simples participação do indivíduo na sociedade contemporânea já
preenche, por si só, um requisito suficiente para o surgimento da
Ansiedade. Portanto, viver ansiosamente passou a ser considerado uma
condição do homem moderno ou um destino comum ao qual todos estamos, de alguma
maneira, atrelados.
Nas últimas décadas, a expressiva mudança em todos os níveis da sociedade
passou a exigir do ser humano uma grande capacidade de adaptação física, mental
e social. Muitas vezes, a grande exigência imposta às pessoas pelas mudanças da
vida moderna e, conseqüentemente, a necessidade imperiosa de ajustar-se à tais
mudanças, acabaram por expor as pessoas à uma freqüente situação de conflito,
ansiedade, angústia e desestabilização emocional.
O endocrinologista canadense Hans Selye (1907-1982) foi o primeiro a
pesquisar seriamente o estresse na década de 1930. Ele observou que organismos
diferentes apresentam um mesmo padrão de resposta fisiológica para estímulos
sensoriais ou psicológicos. E isso teria efeitos nocivos em quase todos os
órgãos, tecidos ou processos metabólicos. fungos, etc.
O estresse patológico surge como uma conseqüência direta dos persistentes
esforços adaptativos da pessoa à sua situação existencial.
Seria impossível e, ao mesmo tempo, extremamente indesejável eliminar
completamente todos os tipos de Estresses.
Fisiologicamente, a ausência total de Estresse
equivale à morte. O que devemos tentar fazer é reduzir, nas pessoas, os efeitos
danosos do Estresse que sociedade proporciona e
sensibilizá-las para os meios capazes ajudar a administrar melhor os estressores
do cotidiano.
Devemos buscar uma postura onde o Estresse seja um
acontecimento positivo e não um empecilho ao desempenho pessoal, à saúde e à
felicidade. O ideal seria adquirirmos habilidades para melhorar física e
mentalmente nossa resistência ao Estresse, bem como
eliminar o Estresse desnecessário. Atitudes assim
baseiam-se na modificação de alguns aspectos no estilo de vida nas atitudes.
Aproximadamente 50 a 75% de todas as consultas médicas estão direta ou
indiretamente relacionadas ao Estresse. A medicina não
deve ter apenas um papel importante no tratamento das doenças ligadas ao
Estresse, mas também e principalmente, deve dar ao
assunto uma conotação preventiva e educacional. Conhecer o
Estresse, suas causas, sinais e sintomas, é de
fundamental importância para aprendermos a lidar com ele.
Procurando
significados para a palavra Estresse (stress, em
inglês), vamos entender que estar estressado significa "estar sob
pressão" ou "estar sob a ação de estímulo persistente".
Na realidade, estar estressado não significa apenas estar em contacto com
algum estímulo mas, sobretudo, significa um conjunto de alterações acontecidas
num organismo em respostas à um determinado estímulo capaz de colocá-lo sob
tensão. Sem esse tal "conjunto de alterações" não se pode falar em
Estresse. Mas essa reação do organismo aos agentes
estressores tem um propósito evolutivo. É uma resposta que a natureza dotou os
animais superiores ao perigo.
Hans Selye dividiu toda reação de Estresse
em três estágios. O primeiro estágio, como veremos amis adiante, é a chamada
Reação de Alarme, durante a qual o organismo reconhece o estressor e
começa ativando o sistema neuroendócrino.
No Sistema Endócrino as
glândulas supra-renais são as mais prontamente ativadas e produzem os hormônios
típicos do Estresse, ou seja, o cortisol, a adrenalina
e a noradrenalina. Por causa disso, notadamente por conta da adrenalina, os
batimentos cardíacos aceleram, há dilatação das pupilas, aumenta a sudorese e
aparece hiperglicemia (aumento dos níveis de açúcar no sangue).
Concomitantemente a digestão é paralizada, o baço se contrai para expulsar
mais glóbulos vermelhos para aumentar o fornecimento de oxigênio aos tecidos e
interrompe a atividade imunológica (imunossupressão), por conta do cortisol.
Depois dessa primeira reação de alarme existem mais duas fase
fisiológicas no Estresse, a adaptação e o Esgotamento,
vistas mais adiante.
A função de toda essa
revolução orgânica é preparar o organismo
para a ação, para adaptação imediata
à situação causadora do Estresse para, em essência, favorecer a sobrevivência.
Portanto, o Estresse não implica, obrigatoriamente,
numa alteração patológica e doentia.
Longe de considerarmos o Estresse uma armadilha da
natureza, esse conjunto de alterações fisiológicas tem como principal objetivo
adaptar o indivíduo à situação proporcionada pelo estímulo estressor. O estado
de Estresse está, então, intimamente relacionado com a
capacidade de adaptação do indivíduo à circunstância atual. Ele contribui para a
sobrevivência das espécies, incluindo a nossa.
Imagine como estaria seriamente comprometida a sobrevivência e um gato, caso
permanecesse totalmente apático ao aparecer-lhe um cachorro pela frente. Da
mesma forma, imaginemos um ser humano enfrentando uma tempestade com a mesma
lassidão que sente depois de comer uma pesada refeição. No esporte, no trabalho
ou na vida social o Estresse "normal" deve desempenhar
uma função adaptativa e, sobretudo, sadia.
Há quem compare o Estresse com o susto e, de fato,
há semelhanças entre as alterações fisiológicas que acontecem durante um susto
com aquelas do Estresse. Assim, podemos dizer que o
Estresse seria como um estado de susto crônico e
continuado. O Estresse envolve o organismo como um
todo e, assim como o aumento de adrenalina e cortisona possam ser considerados
componentes endócrinos do Estresse, a ansiedade seria,
igualmente, um dos componentes psíquicos.
Nenhuma alteração do organismo terá início se não houver, antes, a presença
de um estímulo estressor. Podemos chamar de Estímulo Estressor ou
Agente Estressor, qualquer estímulo capaz de provocar num organismo,
esse complexo conjunto de respostas orgânicas, mentais, psicológicas e/ou
comportamentais definidas como Estresse.
Embora haja uma vasta série de modificações na composição química e na
estrutura funcional do organismo diante do Estresse,
estas podem ser consideradas fisiológicas e necessárias à adaptação do indivíduo
à situação atual, porém, sendo muito intensas ou muito duráveis, tais
modificações podem resultar em dano ou lesão. Nesse caso, ao invés de
contribuírem para a adaptação farão exatamente o contrário.
A própria classificação internacional das doenças (CID.10), agrupa num mesmo
capítulo as Reações Agudas ao Estresse Grave e os Transtornos do
Ajustamento (adaptação), sugerindo assim que uma pode levar ao outro.
Na década de 30, o pesquisador canadense Hans Selye, quem estudou
pela primeira vez e profundamente essa questão, denominou o conjunto das
modificações orgânicas resultantes do contacto do organismo com um determinado
estímulo desencadeador de tensão de Sindrome Geral de Adaptação
(SGA).
O que é o Estresse
Ao se
deparar com o Agente Estressor, que pode ser interno ou externo, o
organismo desenvolve um processo fisiológico, que consiste no somatório de todas
as reações sistêmicas, conhecido como Síndrome Geral de Adaptação.
Assim, podemos entender que essa Síndrome Geral de Adaptação ou
Estresse é a alteração global de nosso organismo para
adaptar-se à uma situação nova ou às mudanças de um modo geral.
O Estresse é, portanto, um mecanismo normal
necessário e benéfico ao organismo, pois faz com que o ser humano fique mais
atento e sensível diante de situações de perigo ou de dificuldade. Mesmo
situações consideradas positivas e benéficas, como é o caso por exemplo das
promoções profissionais, casamentos desejados, nascimento de filhos, etc., podem
produzir Estresse.
Na adaptação do organismo (e da mente) aos estímulos estressores, devemos
entender que mesmo as situações que requerem pequenas mudanças ou adaptações,
podem gerar um grau discreto de estresse, variável de pessoa a pessoa, conforme
as características pessoais de reagir aos estímulos.
Em termos científicos, o estresse é a resposta fisiológica e de comportamento
de um indivíduo que se esforça para adaptar-se e ajustar-se a estímulos internos
e externos. Como a energia necessária para esta adaptação é limitada, se houver
persistência do estímulo estressor, mais cedo ou mais tarde o organismo entra em
uma fase de esgotamento.
Sabendo que cada pessoa reage de forma diferente aos estímulos da vida, elas
também terão limiares diferentes de esgotamento por estresse. Segundo a
sensibilidade afetiva da pessoa, portanto, segundo a "visão" que cada um tem da
realidade, da valolrização do passado ou das perspectivas do futuro, as reações
de estresse podem ser mais favorecidas ou menos. Uma representação pessimista da
realidade pode favorecer estas reações, enquanto a representação positiva
produze amenizar os efeitos estressores.
Uma "dose baixa" de Estresse é normal, fisiológico
e desejável. trata-se de uma ocorrência indispensável para nossa saúde e
capacidade produtiva. As características desse
Estresse positivo são: aumento da vitalidade,
manutenção do entusiasmo, do otimismo, da disposição física, interesse, etc. Por
outro lado, o Estresse patológico e exagerado pode ter
conseqüências mais danosas, como por exemplo o cansaço, irritabilidade, falta de
concentração, depressão, pessimismo, queda da resistência imunológica, mau-humor
etc.
Do ponto de vista pessoal, mudanças ocorrem em nossas vidas continuamente e
temos sempre de nos adaptar à elas. Nesses casos o
Estresse funciona como um mecanismo de sobrevivência e
adaptação, necessário para estimular o organismo e melhorar sua atuação diante
de circunstâncias novas.
Do ponto de vista social e cultural as mudanças cotidianas, em si, não são
novidade na civilização humana, elas são, na realidade, a base da evolução de
nossa espécie. O que, talvez, seja novo ao ser humano e perigoso à sua saúde, é
a velocidade sem precedentes com a qual essas mudanças e as exigências que elas
propiciam acontecem na vida moderna. Essas mudança estão em toda a parte;
mudanças importantes na tecnologia, na ciência, medicina, ambiente de trabalho,
nas estruturas organizacionais, nos valores e costumes sociais, na filosofia e
mesmo na religião. Há, continuamente, uma enorme solicitação de adaptação às
pessoas em geral, tanto para os jovens como para os mais velhos.
O Estresse na Vida Moderna
A
Ansiedade, que é a mola propulsora do
Estresse, é um sinal de alerta que adverte sobre a
necessidade de mudar e adaptar-se, ou sobre eventual perigo iminente, e capacita
a pessoa para medidas eficientes nesse sentido. O indivíduo ansioso age,
coloca-se em posição de alerta, física e psiquicamente; dilata as pupilas,
acelera o coração, diverge o sangue para musculatura voluntária, aumenta a
glicose circulante, dilata os brônquios.
A Ansiedade, originalmente fisiológica e indispensável à vida
normal, passou a ser objeto de distúrbios quando o ser humano colocou-a não a
serviço de sua sobrevivência, como fazia antes, mas a serviço de sua existência,
com o amplo leque de circunstâncias quantitativas e qualitativas desta
existência. Assim, o Estresse passou a ser o
representante emocional da Ansiedade, sua correspondência psíquica e
determinada de acordo com características pessoais.
O fato de um evento ser percebido como estressante não depende apenas da
natureza do mesmo, como acontece no mundo animal, mas do significado atribuído à
este evento pela pessoa, de seus recursos, de suas defesas e de seus mecanismos
de enfrentamento. Isso tudo diz respeito mais à personalidade que aos eventos do
destino em si.
Arqueólogos consideram que homem primitivo trabalhava muito menos que nós,
cerca de vinte horas semanais. Sua jornada diária correspondia à caça e colheita
de frutos. O ser humano primitivo manifestava sua ansiedade de maneira muito
próxima ao sentimento de medo, um medo especificamente dirigido a um objeto ou
situação específicos e delimitados no tempo e no espaço, ou seja, a situação, o
perigo e a ameaça estavam de fato ali, nesse determinado lugar e nesse
determinado momento.
Em nossos ancestrais o mecanismo do Estresse foi
destinado à sobrevivência diante dos perigos concretos e próprios da luta pela
vida, como foi o caso das ameaças de animais ferozes, das guerras tribais, das
intempéries climáticas, da busca pelo alimento, da luta pelo espaço geográfico,
etc.
No ser humano moderno, apesar dessas ameaças concretas não existirem mais em
sua plenitude, tal como existiram outrora, o equipamento biológico do Estresse
continuou existindo. permaneceu em nossa natureza como capacidade para reagirmos
ansiosamente diante das ameaças.
Com a civilidade do ser humano outros perigos apareceram e ocuparam o lugar
daqueles que estressavam nossos ancestrais arqueológicos. Atualmente a maioria
dos estímulos desencadeadores desta emoção são inespecíficos, não podem ser
localizados no tempo e no espaço. Hoje em dia tememos a competitividade social,
a segurança social, a competência profissional, a sobrevivência econômica, as
perspectivas futuras e uma infinidade de ameaças abstratas mas reais para nós,
enfim, tudo isso passou a significar a mesma ameaça de perigo que ameaçavam a
sobrevivência de nossos ancestrais. O ser humano moderno coloca-se em posição de
alarme diante de um inimigo abstrato e impalpável mas, não obstante, que dorme e
acorda com ele.
Se nas sociedades primitivas e neolíticas nossos ancestrais experimentavam
estresse diante dos perigos objetivos da sobrevivência física, hoje em dia o
Estresse surge quando a pessoa julga não estar sendo
capaz de cumprir as exigências da sobrevivência social, quando sente que seu
papel social está ameaçado. Diante disso o organismo reage através da
Síndrome Geral de Adaptação a fim de tentar se adequar às exigências
que lhe são impostas.
Mesmo na Idade Média o ser humano ainda trabalhava pouco em comparação ao
homem moderno. Havia o descanso obrigatório aos domingos e cinqüenta feriados
por ano, sendo braçais a maioria dos trabalhos, os quais sempre terminavam ao
pôr-do-sol. Também, em termos de estimulação e de necessidades de conhecimentos
para o simples cotidiano, o que se exigia de um cidadão comum da Idade Média era
infinitamente menor que precisa hoje uma criança de 12 anos.
Tudo leva a crer que o ser humano começou, de fato, a padecer por
Estresse excessivo depois da Revolução
Industrial. Talvez o que a vida passou a exigir das pessoas nesses últimos
80 a 50 anos tenha sido imensamente maior que o desenvolvimento da capacidade
neuro-psicofisiológica de adaptação, resultando pois, nas dificuldades em
conciliar harmonicamente as necessidades adaptativas da vida social e nossos
recursos orgânicos.
Durante uns 40 anos do Século XX o êxodo rural levou milhões de pessoas a
trocar a vida do campo pela agitação das cidades, com suas características
competitivas, agressão urbana, desafios profissionais e de sobrevivência. O
ritmo frenético da vida moderna talvez tenha exigido demasiadamente do corpo
humano e até a possibilidade de adoecer passou a ser uma ameaça potencial ao
sucesso social da pessoa.
Nossos conturbados tempos modernos não têm sido favoráveis ao equilíbrio e ao
desenvolvimento pleno e sadio do corpo humano, apesar de todo o progresso da
medicina, das conquistas científicas, técnicas e sociais que sempre têm
objetivado isso. Hábitos alimentares inadequados, a poluição do ar e da água, a
agressão sonora e visual do ambiente, a insegurança social e no trabalho, a
violência urbana, as crises econômicas e muitas outras fontes de estresse
importantes acabam esgotando a capacidade adaptativa da pessoa.
Assim sendo, a maioria dos autores acredita que parte expressiva das reazões
para o estresse é determinada pelo modo como nossa sociedade está organizada,
pela industrialização, pelo consumo e pela concorrência, especifica os tipos de
relações que serão mantidas e as exigências que deverão ser cumpridas, gerando
condições mais ou menos estressantes de trabalho, das estruturas familiar e
social.
Outro agravante do estresse, em seu aspecto cultural, está na "liberdade" que
a pessoa tem de expressar os comportamentos e atitudes fisiologicamente próprias
do estado de tensão. No mundo moderno não é socialmente aceitável que a pessoa
manifeste comportamentos típicos de fuga ou luta, que era a função natural e o
objetivo biológico original do estresse.
Assim, o ser humano moderno, ao se confrontar com estímulos estressores do
cotidiano, do trabalho, da vida social e pelas ruas é impedido de manifestar
reações de agressão ou de medo sincero, sendo obrigado a apresentar um
comportamento emocional ou motor politicamente correto, porém, incongruente com
sua real situação neuroendócrina. Se a situação estressante persiste
indefinidamente pode sair muito caro, organicamente, o custo de desempanhar um
papel social incompatível com a natureza biológica do estresse. Haverá um
elevado desgaste do organismo, predispondo certas doenças psicossomáticas.
Entre os estressores de peso social temos o
fracasso, a carga, a manutenção, momnotonia e a
satisfação com o trabalho, a pressão para corrida
contra o tempo, as ameaças sociais e financeiras,
indução do medo através da violência urbana,
as situações involuntárias de
competição, os trabalhos em condições de
perigo, a submissão involuntária aos tabus, a
contestação e contrariedade com certos valores, a
contrariedade ou privação de vida social e
submissão contrariada às normas.
Fatores Estressantes
Em tese, Estresse é a resposta
fisiológica, psicológica e comportamental de um indivíduo que procura se adaptar
e se ajustar às solicitações internas e/ou externas. Essas solicitações capazes
de levar ao Estresse são chamadas de Fatores
Estressantes ou Agentes Estressores.
Assim sendo, Fator Estressor é um acontecimento, uma situação, uma
pessoa ou um objeto capaz de proporcionar suficiente tensão emocional, portanto,
capaz de induzir à reação de Estresse.
Os fatores estressantes podem variar amplamente quanto à sua natureza,
abrangendo desde componentes emocionais, como por exemplo a frustração,
ansiedade, perda, até componentes de origem ambiental, biológica e física, como
é o caso do ruído excessivo, da poluição, variações extremas de temperatura,
problemas de nutrição, sobrecarga de trabalho, etc. De um modo geral vale a
classificação dos estressores como está no quadro ao lado.
Podemos ainda considerar os estressores como tendo origem interna ou externa
ao indivíduo. Se colocarmos um gato junto de um cão feroz, depois de algum tempo
o gato estará esgotado; primeiro ele terá muita ansiedade, entrará em
Estresse e, se o estímulo estressor persistir
(presença do cão), ele se esgotará.
Tendo em vista o fato do gato representar para o cão uma ameaça menos
agressiva que o cão representa para ele, o cão ficará esgotado depois do gato.
Nesse caso o cão representa para o gato um estímulo estressor
externo, por estar fora do gato e, inato, por fazer
parte da natureza biológica de todos os gatos.
Assim sendo, nos animais os estímulos para desencadear a ansiedade podem ter
duas naturezas e uma só origem: quanto à natureza eles podem ser
inatos, como vimos, do tipo gato tem medo de cachorro ou, por outro
lado, condicionados por treinamento e experiência.
Quanto à origem serão predominantemente externos, partindo do pressuposto que
os animais não têm condições para alimentarem conflitos intrapsíquicos. Mesmo
assim, podemos dizer que alguns estímulos estressores para animais têm origem
interna quando provém de comportamentos inatos.
No ser humano, dito civilizado, esses estímulos costumam ter duas origens;
podem ser externos e, principalmente, internos.
Os estímulos internos são oriundos dos conflitos pessoais os quais, em última
instância, refletem sempre a tonalidade afetiva de cada um. Os estímulos
externos, por sua vez, representam as ameaças concretas do cotidiano de cada
um.
Nossa capacidade de perceber o mundo individualmente proporciona uma
representação pessoal da realidade. Essa percepção pessoal da realidade,
diferente em cada um de nós, é chamada de procepção da realidade. O principal
conhecimento que devemos ter disso é que a realidade será sempre representada
intimamente e de acordo com os filtros afetivos de cada um (para entender melhor
veja a sugestão no quadro ao lado).
|
Nos Animais
|
No Ser Humano
|
|
Origem
|
Natureza
|
Origem
|
Natureza
|
|
Externos
|
Condicionados
|
Externos
|
Adversidades,
conflitos
|
|
Internos
|
Inatos
|
Internos
|
Transtornos
afetivos, traços de
personalidade
|
Portanto, por causa da percepção individual que temos da realidade não é
totalmente lícito dizer que esse ou aquele determinado fato são estressores,
pois alguns fatos podem representar estressores para alguns e não para
outros.
A percepção pessoal da realidade engloba toda a realidade ou toda nossa
maneira de ver e sentir o mundo. Engloba não apenas a concepção que temos das
coisas que estão fora da gente como os conceitos que temos dentro da gente. Isso
inclui também a imagem que nós temos de nós mesmos, ou seja, inclui nossa
própria auto-estima.
Nossa auto-estima, por exemplo, pode ser representada mais negativamente ou
mais positivamente, de acordo com a tonalidade afetiva de cada um. Algumas
pessoas se vêem ótimas, outras se vêem péssimas. Assim sendo, a idéia que nós
temos de nós mesmos pode ser um estímulo agressivo e estressor, causador de
ansiedade, se representar uma idéia ruim e que nos perturba constantemente.
É por causa desses estímulos internos é que a ansiedade humana tem sido
constante e, às vezes, patológica. As ameaças externas não costumam ser
constantes mas as internas sim. Vejamos o caso das ameaças concretas acerca de
nossa segurança pessoal, por exemplo: a ameaça de ser assaltados, agredidos,
morto, etc.
A possibilidade até existe, nos grandes centros, mas não é continuada. Há
situações onde podemos nos sentir seguros, racionalmente falando. Entretanto, o
estímulo interno não é racional, é emocional. Isso quer dizer que podemos estar
ansiosos devido ao medo de sermos assaltados e agredidos, embora essa
possibilidade prática seja mínima.
Da mesma forma, podemos dizer que ficar doente seja uma ameaça séria, um
estímulo ameaçador importante. É claro que é. Entretanto, podemos experimentar
uma grande ansiedade devido ao fato de pensarmos que podemos ficar doentes. Esse
estímulo é interno e não externo. Seria externo caso houvesse, de fato, sinais
de que nossa saúde está abalada. Enquanto houver apenas o medo de passar mal, de
poder ficar doente, isso será uma ameaça interna.
Ora, enquanto nos animais os agentes estressores (estímulos estressores
externos) aparecem periodicamente, no ser humano a presença dos estímulos
estressores (internos) pode ser continuada. Havendo pois, uma afetividade
problemática, uma insegurança e pessimismo vamos sentir ameaças internas
continuamente. Vamos dormir com essas ameaças e acordar com elas. Portanto,
nessas circunstâncias podemos ter o esgotamento.
De modo geral, no ser humano a afetividade é a moduladora da percepção que
temos do mundo (procepção), e será essa afetividade a maior responsável por
percebermos os estímulos como sendo agressivos e ameaçadores (estressores) ou
não. Mesmo se tratando de um estímulo externo, proveniente do mundo objetivo,
sua eventual natureza agressiva poderá ser mais traumática ou menos traumática,
dependendo da conotação à ele atribuída por nosso afeto.
Assim sendo, os estímulos ambientais se tornarão estressores não apenas de
acordo com a sua natureza objetiva mas, sobretudo, de acodo avaliação subjetiva
que a pessoa faz deles, atribuindo-lhes ou não importância. O mesmo podemos
dizer em relação aos estímulos internos, ou seja, aos conflitos, frustrações,
medos, sentimentos de perda, etc. Dependendo de nosso afeto essas emoções e
sentimentos podem significar uma ameaça maior ou menor.
A existência dos conflitos pode ser considerada fisiológica na espécie
humana, ou seja, eles existem em todos nós. Porém, é muito importante saber da
capacidade desses conflitos determinarem uma ansiedade patológica, isso sim
merece uma dedicação especial. Determinarão ansiedade na proporção que
significarem ameaça para nós.
A Força dos Estressores
Vários
autores tentaram estabelecer alguma espécie de graduação de importância para os
vários estímulos estressores possíveis no cotidiano. Embora algumas listas
possam dar a idéia de grau ou da força variável dos estressores, como por
exemplo, o caso da separação conjugal que seria mais estressante que mudança de
emprego e menos do que a morte do filho, tais tabelas perdem o valor quando
consideramos que as pessoas são muito diferentes quanto à sua forma de reagir
aos desafios impostos pela vida.
Algumas pessoas podem superar perfeitamente alguma perda importante, enquanto
outros podem desenvolver um transtorno emocional como resposta à acontecimentos
estressantes de menor importância. As variáveis pessoais desempenham um papel
decisivo na maneira de reagor aos eventos de vida.
De um modo geral, pelo menos é bom termos em mente que existem categorias de
estressores que nos impõem grandes esforços adaptativos, como por exemplo, a
morte de um ente querido, uma grande perda, severos revezes econômicos,
constatação de doença séria, etc., e, ao lado desses, existem os pequenos
acontecimentos estressantes do cotidiano que acontecem com maior frequência na
vida das pessoas e, finalmente, existem ainda a influência dos conflitos íntimos
pessoais.
Mas, além dos acontecimentos consideradosev entualmente estressantes para o
desencadeamento e manutenção do Estresse, há imperiosa
necessidade de uma vulnerabilidade pessoal à ansiedade.
Vulnerabilidade pessoal é uma espécie de tendência constitucional a reagir
mais ansiosamente aos estímulos. Algumas pessoas reagem com uma ativação
fisiológica maior aos acontecimentos estressantes.
Um exemplo médico que pode se prestar à analogia com o
Estresse seria, novamente, o da reação alérgica. Se,
dentro de um mesmo ambiente impregnado de bolor, existirem 10 pessoas e 3 delas
reagirem com espirros, coriza e lacrimejamento, enfim, com sinais de uma rinite
alérgica ao mofo, não se pode, medicamente falando, atribuir ao fungo do bolor a
causa exclusiva para tal rinite.
Se assim fosse todos os demais também teriam essa reação. Para ocorrer a
reação alérgica é indispensável existir o mofo mais a sensibilidade pessoal. No
máximo, podemos dizer que para a reação alégica do exemplo são necessários dois
elementos; o fungo e a sensibilidade da pessoa.
Ao se estudar a Violência Urbana e suas conseqüências psiquiátricas, podemos
encontrar tabelas (como a abaixo) que listam estímulos estressores relacionados
ao desenvolvimento Transtorno por Estresse Pós-Traumático de intensidade
moderada ou grave. Atualmente, as guerras e os refugiados que estas ocasionam,
também estão sendo objeto de especial atenção por parte dos investigadores.
|
Estímulos estressantes e porcentagem de Transtorno por Estresse
Pós-Traumático
|
|
Autor
|
Ano
|
Acontecimento
|
%
|
|
Terr
Pynoos
McLeer
McLeer
Reinherz
Shaw
Najarian
Savin
March
Korol
Sack
|
1981
1987
1988
1993
1996
1996
1996
1997
1999
1999
2000
|
Seqüestro
Ataque de
franco-atirador
Abuso
sexual
Agressão
física
Furacão
Terremoto
Guerra
Incêndio
Desastre
nuclear
Guerra
Violência
doméstica
|
100
93
48
25
70
32
71
12
88
50
24
|
De qualquer forma é fundamental ter em mente que a força dos estressores
depende mais da sensibilidade do sujeito do que do valor do objeto, ou seja,
depende de como e com que peso a pessoa valoriza o evento (interno ou externo),
mais do que o evento em si. Há pessoas que vivenciam as mesmas experiências que
outros e regem diferentemente, experimentando estresse de grau variado ou, às
vezes, nem se estressando. É por isso que estudamos, a seguir, o aspecto pessoal
dos estressores.
Efeitos Pessoais dos
Estressores
Nossa capacidade de conhecer o mundo decorre de
nossa percepção pessoal da realidade. Essa percepção pessoal da realidade,
diferente em cada um de nós, é chamada de procepção da realidade.
O principal conhecimento que devemos ter disso, é que a realidade será sempre
representada intimamente e de acordo com os filtros afetivos de cada um, ou
seja, de acordo com a sensibilidade (afetiva) de cada um.
A percepção pessoal da realidade engloba toda a realidade ou toda nossa
maneira de ver e sentir o mundo e só essa realidade (única para nós) nos
interessa. Nossa percepção pessoal da realidade engloba não apenas a concepção
que temos das coisas que estão fora da gente, como os fatos, eventos, objetos,
pessoas, etc., mas também os conceitos que cultivamos dentro da gente, nossas
escalas de valores, nosso conflitos e complexos. Dentro de todo esse material
interno ou intra-psíquico inclui-se, também, a imagem que nós temos de nós
mesmos, ou seja, inclui nossa auto-estima.
Nossa auto-estima, por exemplo, poderá ser representada mais negativamente ou
mais positivamente, de acordo com a tonalidade afetiva de cada um. Algumas
pessoas se vêem ótimos, outras se vêem péssimos. Assim sendo, a idéia que temos
de nós mesmos pode, por si só, ser um estímulo agressivo e causador de
ansiedade, caso seja uma idéia de nós seja uma idéia ruim e que nos perturba
constantemente.
Mesmo em se tratando de um eventual estímulo externo, proveniente do mundo
objetivo e concreto, sua natureza agressiva poderá ser mais traumática ou menos
traumática, ou seja, mais estressante ou menos estressante, dependendo da
conotação mais agressiva ou menos agressiva à ele atribuída por nossa
sensibilidade (afetiva). Ter que falar em público, por exemplo, pode representar
uma ameaça maior ou menor, dependendo das circunstâncias pessoais.
Vendo uma antiga fotografia de algum ente querido já falecido, algumas
pessoas experimentam sentimentos tenros, suaves, saudosos e até agradáveis,
outras, por sua vez, podem experimentar sentimentos de angústia, tristeza,
sensação de perda, pesar, enfim, sentimentos desagradáveis. O que, realmente,
dentro das pessoas faz com que essa foto seja valorizada (Representada)
dessa ou daquela maneira é a Afetividade.
A Afetividade é, pois, quem dá valor e Representa nossa
realidade. Essa Afetividade também é capaz de Representar um
ambiente cheio de gente como se fosse ameaçador, estressante, e é capaz de nos
fazer imaginar que pode existir uma cobra dentro do quarto ou ainda, é capaz de
produzir pânico ao nos fazer imaginar que podemos morrer de repente.
A Afetividade valoriza tudo em nossa vida, tudo aquilo que está fora
de nós, como os fatos e acontecimentos, bem como aquilo que está dentro de nós
(causas subjetivas), como nossos medos, nossos conflitos, nossos anseios, etc. A
Afetividade valoriza também os fatos e acontecimentos de nosso passado
e nossas perspectivas futuras.
O melhor exemplo que podemos referir para entender a Afetividade,
conforme já falamos em outros locais desse site, é compará-la à óculos através
dos quais vemos o mundo. São esses hipotéticos óculos que nos fazem enxergar
nossa realidade desse ou daquele jeito. Se esses óculos não estiverem certos
podemos enxergar as coisas maiores ou menores do que são, mais coloridas ou mais
cinzentas, mais distorcidas ou fora de foco. Tratar da Afetividade significa
regular os óculos através dos quais vemos nosso mundo.
Ballone GJ, Moura EC - Estresse - Introdução
- in. PsiqWeb, Internet,
disponível em www.psiqweb.med.br, revisto
em 2008
Múcio Morais
Palestras Motivacionais e Seminários de Qualidade de Vida
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