Especialista traz uma reflexão sobre o
atual modelo socioeconômico e a questão da
sustentabilidade
A mídia traz a todo momento
informações sobre aquecimento global,
emissão de gases nocivos, exaustão dos recursos
naturais, vazamentos de óleo, desmatamentos, conflitos
armados. Um cenário áspero. Preservar a vida com
alguma dignidade é uma questão de interesse
global e envolve o nosso futuro e o das próximas
gerações. No entanto as questões
relacionadas ao desenvolvimento sustentável e habitabilidade
da terra, por serem mais recentes e menos conhecidas, são
pouco ou quase nunca abordadas pela maioria das pessoas. E isto deveria
ser diferente.
Com o intuito de fomentar a discussão e articular os
argumentos necessários a reflexão, introduzo um
tema que vejo ser um dos mais críticos e complexos quando
tratamos de humanidade e dos ecossistemas garantidores de sua
existência: o modelo de produção e a
forma como consumimos.
O esgotamento do atual modelo
socioeconômico
O sistema vigente resulta num pesado ônus
político e socioambiental. E tende a se agravar em
médio e longo prazo comprometendo, sobretudo, a qualidade de
vida no futuro. A ameaça de exaustão
dos recursos naturais por conta da elevada e crescente demanda
por alimentos e bens de consumo aliada à
deterioração das relações
de troca entre trabalho e capital resultou num perverso enriquecimento
de minorias, relegando a maioria a condição de
pobreza. Isto levou ao enorme distanciamento socioeconômico
entre classes sociais e entre as nações. E nesta
cadencia, o cenário inexoravelmente se
agravará.
No âmbito climático, rios transbordam na
Suíça, no Brasil, nos EUA, na Alemanha e na China
com frequências cada vez maiores. Estudos do IPCC apontam
para uma diminuição da quantidade de "dias frios"
e aumento dos "dias quentes". No Ártico, na Cordilheira dos
Andes e na Europa central, as camadas de gelo e neve estão
derretendo. No âmbito econômico, o cientista
inglês Nicholas Stern relata em seu estudo que cuidar do
clima do planeta custaria entre 1% ou 2% do PIB mundial, mas os
países ricos, principais poluidores ainda hesitam em agir. O
grupo dos países mais industrializados atravessa a pior
crise financeira dos últimos 70 anos, com elevados indices
de desemprego. Países vão à
falência e ameaçam arrastar junto boa parte da
zona do euro.
Enquanto lemos este artigo centenas de pessoas morrem em
decorrência de conflitos armados ou da pobreza extrema na
Africa, Oriente Médio e Ásia. Vetores que tendem
a evoluir sem exceção, sejam em países
ricos ou pobres. Estudos recentes elaborados por
instituições acreditadas apontam que
considerando-se os atuais padrões de consumo da
população mundial hoje exige 2.5 planetas Terra
adicionais para que dê conta de sua demanda por alimento,
lazer e conforto. Estamos falando de Pegada Ecológica, assim
é conhecido o indicador que aponta o esforço do
planeta para sustentar a atual civilização.
Procure na web por Footprint ou então no site
www.wwf.org.br/pegadaecologica.
Para se ter uma noção do impacto sobre o planeta,
é interessante observar que se levou 300 mil anos para nos
tornarmos 2.5 bilhões de pessoas em 1950. E desde
então até os dias de hoje, aumentamos e somos
mais de 6,7 bilhões de seres humanos, consumindo muito de
tudo. Portanto, em apenas 60 anos a população
mundial mais que dobrou, e a velocidade do consumo destes recursos
também cresceu de forma vertical.
Não é a toa que o
planeta aqueceu
Vamos considerar que apenas uma parte significativa da
população mundial, pertencente aos
países conhecidos por economias emergentes, formada por
chineses, indianos e brasileiros desejem, por exemplo, adquirir um
automóvel, uma geladeira, um forno de microondas, viajar de
avião, ou ainda comer carne ou pescado. Anseios, originais e
meritórios, que representam alguns itens de consumo e
conforto no mundo contemporâneo mediano.
Discorrendo de modo singular sobre as consequências
ambientais para atender esta demanda, veja o que poderia acontecer.
• Haveria aumento da demanda por combustível
fóssil. Maior extração e refino para
produzir os combustíveis para viabilizar toda a
logística envolvida. Impacto gerado: aumento das
emissões de gases efeito estufa (gee) e por
consequência do aquecimento global,
contaminação do solo e dos recursos
hídricos. Vazamentos de óleo durante a
extração (BP/Golfo do México) ou
armazenamento (Petrobras/Baia da Guanabara-2000).
• Crescimento da extração de
minério para fabricação do
aço necessário para a manufatura dos bens.
Impacto gerado: degradação do solo, assoreamento
de rios e lagos, desmatamento, demandam adicional de energia e por
conseqüência, maior emissão de gases
efeito estufa, além de outros poluentes pesados na
atmosfera, nos rios e oceanos.
• Intensificação do uso de energia para
operação dos equipamentos de
produção de bens duráveis e de
consumo. Impacto gerado: sobrecarga na temperatura global por conta da
queima do combustível fóssil e pelo alagamento de
novas áreas, hoje florestadas, para
produção de mais energia hidrológica;
aumento de resíduos tóxico e nucleares.
• Aumento da demanda em toda a cadeia da
matéria–prima, mão de obra e insumos
secundários para a manufatura, logística de
entrega e emprego de componentes agregados como papel,
plástico e aço. Impacto gerado:
superexploração dos recursos naturais e maior
exposição dos biomas ao risco de
exaustão e extinção
• Aumento na demanda por alimentos. Impacto gerado:
intensificação do desmatamento e da
degradação da terra pela cadeia do agrobusiness,
exaustão dos aquíferos por conta de
métodos inadequados de plantio e
irrigação. Só para citarmos alguns.
Contudo, para que a exposição não
pareça parcial há que se considerar que
não se trata apenas de uma cadeia de
destruição e ônus que se
impõe. Há também uma corrente paralela
de construção e de benefícios e isto
nos permite uma reflexão comparativa sobre a
relação. Infelizmente esta
relação é marcada por um profundo
desequilíbrio, pois o regime socioeconômico
vigente, excludente, não permite que a maior parte das
populações possa usufruir de
benefícios como alimentos, medicamentos, tecnologia e o que
é pior, aqueles que podem, em sua maioria o fazem de forma
perdulária.
Em 2030 seremos 9 bilhões de
habitantes
Seria este o momento da profunda e extensa
reavaliação necessária dos
princípios e valores vigentes, uma vez que
civilização atual se encontra próxima
do limite de esgotamento de seus recursos naturais? Grande parte das
fronteiras voltadas para a sobrevivência está
mapeada. Já sabemos quais são e onde
estão.
Resta agora o mais complexo, que é conceber quais
serão os novos fundamentos socioambientais para
uma inovadora hegemonia global e quais os paradigmas
econômicos viáveis para esta nova era. Como
conciliar os anseios de uma sociedade que aprendeu a cultuar e adorar a
imagem do excesso de oferta á um cenário de
limitação e escassez no futuro?
Kant e o Iluminismo
A última grande revolução de ideias
que efetivamente transformou o mundo foi na primeira metade
do século XVIII com o Iluminismo, quando houve uma
convergência de tendências filosóficas,
sociais, políticas, intelectuais e religiosas. Resultando
num vasto conjunto de valores e de novos princípios
estruturais e pragmáticos que nos nortearam até
os dias de hoje.
Nos tornamos a evolução daquele momento e agora
nos damos conta de que precisamos de outra grande era de
transformação.
Como definiu o grande pensador Immanuel Kant: “O Iluminismo
representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que
estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se
encontram incapazes de fazer uso da própria razão
independentemente da direção de outrem.
É-se culpado da própria tutelagem quando esta
resulta não de uma deficiência do entendimento mas
da falta de resolução e coragem para se fazer uso
do entendimento independentemente da direção de
outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua
própria razão! - esse é o lema do
Iluminismo". E é disso que precisamos.
Laércio Bruno Filho (Diretor de Novos
Negócios Socioambientais e Coordenador Técnico de
Programas de Sustentabilidade Empresarial e de Desenvolvimento
Sustentável para Comunidades pela empresa eSENSE. Professor
Convidado do MBA PECEGE da ESALQ/USP para a disciplina
Agronegócios; Relator do Grupo de Estudos Sobre Florestas no
comitê de discussão do mercado
voluntário de carbono da ABNT, Membro do grupo de Estudos
sobre Ética e Sustentabilidade do CRA-SP)